Retrospectiva, parte emocional
Nesse ano vi algumas cenas repetidas: vi que shit happens e aqueles que um dia estão fazendo planos com você de uma hora para outra podem te dar uma porrada. Que as coisas acabam então o melhor é aproveitar muito enquanto duram. Que perdoar é bem diferente de esquecer mas é possível recomeçar. Que relacionamento é construção, e demora. Nesse ano eu vi que algumas pessoas que estavam sempre por aí de repente estão sempre aqui e ficam muito importantes. Meu eleito para Pessoa do Ano me abordou no meio de uma festa, já foi e já voltou e eu espero que fique. Nesse ano eu fui mais longe do que sonhei ir tão cedo mas elejo como Momento do Ano um vivido aqui perto. Reunir 27 pessoas de uma família, depois de tanta coisa, merece. Nesse ano eu conheci boas pessoas. Nesse ano descobri que tem gente que cuida de mim! Nesse ano eu aprendi que as coisas precisam ser ditas. Nesse ano eu tive minha mala revistada à meia-noite sozinha no aeroporto de Paris e fiquei calma. Nesse ano eu decidi que não era hora trocar o Rio por São Paulo. Nesse ano eu mandei um email-SOS pros meus pais com o subject “Baby Bruna” e repeti o pedido milhões de vezes. Nesse ano eu confirmei mais uma vez a frase do Mario Prata de que “um por todos e todos por um só pode ser lema de bêbado ou bandido”, e tudo bem. Nesse ano eu vi pouco companheiros de aventuras que fazem falta. Nesse ano eu comemorei o quinto ano de amigo oculto das amigas e quero acreditar que ele vai continuar. Nesse ano eu provei que sei ser sozinha, só para descobrir que quero ter sempre essa gente por perto. Foi a minha Lição do Ano.
Que Papai Noel traga bons amigos para todos!
King Jackson
Há quem ache que Peter Jackson não decidiu ser cineasta depois de ver King Kong nem nunca desfez nenhum casaco de pele da mãe para recriar o monstro quando era pequeno, que isso é marketing. Eu acredito. Nunca gostei de macacos, em festinha de criança que tinha chimpanzé eu ficava bem longe então para me afeiçoar a um gorila ele teria que ser mais parecido com um panda, mas saí do cinema encantada pela obra. A música de abertura dá o tom e por duas vezes é repetida a frase que para mim resume o filme: é possível encontrar magia no mundo pelo preço de um ingresso.
King Kong é um filmaço daqueles que quando você entra na sala de cinema assina um contrato dizendo “vou acreditar em tudo que me disserem”. Ouvi da platéia comentários do tipo “ah, até parece”, essas pessoas deveriam ser expulsas da sessão. Bem, ver Kong e Ann patinando no Central Park é ir além do combinado inicial, mas pode-se relevar: é a hora de rir! Quando aparecem os nativos é hora de se assustar, durante a tempestade no navio é hora de se agarrar à cadeira, nas tentativas de fuga é hora de torcer, em vários diálogos é hora de gargalhar e quando Adrien Brody decide lutar pela mocinha é hora de suspirar. O bom diretor é aquele que dirige a platéia.
Podiam ter editado as lutas do macacão contra os dinossauros, as larvas comendo cabeças e as intermináveis trocas de olhares dos protagonistas que esticam a história para 3 horas e 10. A versão de 1933 tinha apenas 94 minutos mas a empolgação de Peter Jackson dessa vez foi um pouco além, financeiramente falando inclusive. O filme estourou o orçamento em 40 milhões, que Jackson bancou sozinho para não abrir mão de nada. Quase nada, não teve continuísta para o cabelo da Naomi Watts;-)
Kong é possessivo e mimado, Ann é impulsiva e volúvel, casal perfeito. O mundo não estava bom nos anos 30 mas esteticamente era ótimo, o vaudeville divertido e eu saí torcendo para Naomi Watts ser a próxima Grace de Lars Von Trier. Jack Black tem um olhar meio insano mas não consegui deixar de pensar em Escola de Rock porque as cenas em que ele decide filmar a qualquer custo são hilárias. Não fosse o mau caratismo do personagem eu diria que ele é o alter ego de Peter Jackson. Como Adrien Brody não precisou fazer grandes esforços, poderia ter sido escalado um galã. É cinemão, preciso me apaixonar pelo mocinho e o pianista é excelente ator mas está longe de ser bonito.
Depois do mega sucesso de O Senhor dos Anéis, Jackson pôde realizar sua brincadeira de criança e é a grande estrela do filme. Só ele tinha o prestígio e a técnica para refazer King Kong já que é dono do estúdio de efeitos especiais. Seus 450 técnicos construíram cenários em miniatura, recriaram NY, montaram uma gigantesca selva e o monstro de 7 metros e meio. O salário - US$ 20 milhões de dólares mais 20% da bilheteria - deve ter sido tão bom de receber quanto ver o filme pronto. Quando King Kong bate no peito no alto do Empire State, imaginei Peter Jackson dando um risinho e pensando: “I’m the king of the world”!
Happy birthday, Leo
Hoje John Spencer faria 59 anos. Ao contrário de quando Leo McGarry caiu em Camp David, ele não resistiu a um ataque cardíaco na sexta-feira. Costumava dizer que The West Wing não é uma série sobre a Casa Branca, mas uma história sobre relações humanas cujo pano de fundo é a política. Os roteiristas ainda não sabem como resolver a morte do ator, e vão penar para achar uma saída. Eu ainda votaria em Matt Santos, mas sem Leo o candidato democrata fica muito instável. O ex-chefe de gabinete do presidente Bartlet atualmente disputava as eleições americanas como vice de Santos.
Leo é aquela pessoa que sempre sabe como agir. Ex-alcóolatra como seu intérprete, com a saúde debilitada, mas protagonista de cenas inesquecíveis. Como uma ligação para o NY Times no meio do dia: “17 na vertical... Sim... 17 na vertical está errada, vocês estão soletrando o nome errado. Qual o meu nome? Não interessa, sou um cidadão que acha as palavras cruzadas do NY Times estimulantes e estou dizendo que estive com o homem duas vezes, recomendei um ataque aéreo contra seu exército então acho que sei escrever o nome dele. Alô? Droga, desligaram na minha cara de novo.
Talk to me now I'm older
Mexendo em fotos antigas, Bruna grande é desafiada pela pequena Bruna:
- Você ainda mora com meus pais? Não me diga que casou e se acomodou, não planejei ser uma Amélia sentimentalóide. Você é uma super profissional mega ocupada e rica, certo? E o livro, já escreveu? Cadê seus cachorros? Que fotos velhas nesse mural, não tem de festinhas mais atuais? Tão poucas pessoas. Você já é meio velha mas tem uma cara de criança...
Bruna pequena não costumava falar assim com os outros, era quase uma diplomata. Releva, ela deve estar estressada. Não, tanta petulância merece uma resposta sincera.
- Quando crescer você vai fazer metade das coisas que sempre disse que não faria porque você não quer ter razão, uhuuu, quer ser feliz! Mesmo que cisme que sua felicidade está do lado oposto ao que a seta indica. Você vai realizar seus sonhos e se desapontar várias vezes. Vai preferir manter suas ilusões porque são elas que geram energia para fazer o que está a seu alcance. A vida é dura até para quem não é mole e acaba sendo uma sucessão de “fiz o melhor que pude”. Você vai perdoar pessoas que cometeram erros imperdoáveis, vai conviver com outras que não tem nada a ver com seus valores. Vai voltar atrás em decisões que antes pareciam as mais certas, vai brigar com quem não merece e passar por cima de mancadas de quem merecia um soco na cara. Você vai mentir mesmo que isso faça doer seu coração, vai se tornar uma ótima atriz de tanto se exercitar. Milhares de pessoas vão partir seu coração, e milhares de vezes você vai querê-las de volta. Outras poucas vão fazer tudo para ter seu coração, e você vai fazer o melhor de si para afastá-las. Vai se afastar de quem gostaria que ficasse para sempre do seu lado. Você vai descobrir que “para sempre” tem duração limitada.
Você vai ser orgulhosa, teimosa, dura demais para tentar não se sentir tão covarde. Não vai saber o que fazer, vai pedir conselhos e fazer exatamente o oposto. Vai descobrir que seus pais têm a mesma idade que você, às vezes menos, e que você tem a exata noção de como viver a vida alheia mas nenhuma idéia do que fazer com a sua. Você vai ter menos dinheiro do que gostaria, vai realizar menos grandes ações do que planejou, só vai ser ídolo do seu cachorro e nem vai cuidar tanto dele.
Você vai aprender que conquistas não são de graça e aos poucos vai descobrir que ser adulto significa preocupação com o futuro. Você vai preferir Paul ao John, vai vencer a batalha contra sua mãe e nunca comer feijão e vai decepcionar seu pai porque não sabe fazer conta. Vai se esforçar para ser mais impulsiva. E mesmo assim você vai achar que vale a pena. Mas faz um favor? Estuda menos, viaja mais.
E a pequena eu pergunta: - Com tudo isso Papai Noel ainda vai trazer nosso presente?
- Vai, e você continua esperando a hora certa de abrí-los na árvore.