Li uma “mesa-redonda” na Newsweek com Bennett Miller, Steven Spielberg, George Clooney, Ang Lee e Paul Haggis - os diretores dos filmes indicados ao Oscar. É interessante ver a opinião de quem faz a brincadeira, além de ser muito divertido vê-los trocando dicas e revelações (quando Clooney dirigiu seu primeiro filme - Confessions of a Dangerous Mind – fez 850 storyboards porque teve medo das pessoas não confiarem nele).
Os cinco filmes são politizados: Capote aborda ética jornalística, Munique é sobre terrorismo, Good Night and Good Luck tem perseguição política, Brokeback Mountain mostra um amor homossexual e Crash fala sobre racismo. Em tempos de Bush, nada mal. Esse foi um dos temas: Spielberg acha que o cinema ficou mais pró-ativo no segundo mandato porque todos tentam declarar sua independência, deixar claro suas posições já que não se sentem representados pelo presidente. Reli essa declaração depois de ver Good Night and Good Luck e entendi porque gostei mais dele do que do favorito Brokeback: cada filme levanta a sua bandeira e por isso a preferência do público esse ano está mais subjetiva do que nunca, depende da causa mais próxima da revolução de cada um.
Na cena final, quando Edward Murrow acusa a TV de ter se tornado só uma caixa de luzes alienante, me senti pessoalmente ofendida, lembrei do motivo de ter escolhido ser jornalista. O Heath Ledger disse que topou interpretar o cowboy gay de Brokeback porque é cada vez mais difícil achar histórias que nunca tenham sido contadas. Histórias de amores sufocados já foram contadas centenas de vezes, deve ser o plot mais repetido do cinema. Essa é bonita, o desempenho dele merece o Oscar de ator mas o valor do filme é levar para o mainstream o amor sufocado gay sem caricatura. Se fosse um caso entre heteros não seria tão elogiado.
Na entrevista Paul Haggis diz que os cinco são filmes dos quais se sai querendo debater com os amigos porque fazem perguntas desconcertantes (Crash certamente), e eu vejo nisso um grande valor. Arte deve entreter mas também provocar, informar, mudar o espectador. Mesmo uma comédia despretenciosa tem a sua função, quem entra no cinema deve sair mais leve. Começa aí uma questão comercial versus artística, mas fica para outro capítulo.
Na categoria melhor diretor torço por Ang Lee, que escondeu a vontade de filmar até fazer o primeiro longa (sem nenhum storyboard!), por George Clooney porque ele poderia ser só lindo mas também é talentoso, e por Paul Haggis porque sempre torço pelos azarões que merecem.
No final do “Oscar roundtable” ainda sobra um conselho do Spielberg para os novatos: “Vocês ainda serão reconhecidos diversas vezes por seus trabalhos, mas eu espero que hoje estejam todos guardando esse amor numa garrafa. Ponham essa garrafa onde suas crianças não alcancem! E de vez em quando tirem a tampa para lembrar do perfume delicioso”. Palavra de quem já fez ET mas também Amistad
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