Trilha sonora
"Se eu fingir e sair por aí na noitada, me acabando de rir
Se eu disser que não digo e não ligo, que fico... Que só vou aprontar
É que eu sambo direitinho, assim bem miudinho, 'cê não sabe acompanhar
Vou arrancar sua blusa e pôr no meu cabide só pra pendurar
Quero ver se você tem atitude e se vai encarar"
Mart'nália melhorando a Ana Carolina, uma delícia.
O sapatinho de cristal da Simone de Beauvoir
No dia internacional da mulher eu não quero queimar nenhum sutiã. Quero gastar minha fortuna na Victoria’s Secret para comprar um lindo, rendado e dedicado ao príncipe do momento sem ter nada de submisso nisso.
Hoje quero pregar a reconquista do direito de ser mocinha, de balançar lencinho no vento, de piscar os olhinhos romanticamente, de querer que abram a porta do carro, que mandem flores, que peguem no colo, que me tratem como boneca de porcelana. Não é porque eu ganho meu próprio dinheiro que não quero que paguem a minha conta como uma cortesia! Quero poder não ser forte, chorar quando machucam meu coração, não fingir que não me importo de ser desprezada. Quero poder reclamar que não gostei sem ser histérica, quero conversar sorrindo sem dar mole, gargalhar com as amigas sem ser escandalosa. Quero deixar claro que homem é sistema binário e precisa evoluir para entender o que não é dito explicitamente, que não está ok eles nunca superarem a adolescência e que eu odeio piadas machistas.
Quero admitir que na maioria das vezes eu beijo ouvindo a marcha nupcial, que sei os nomes dos meus filhos há anos e que noutro dia vi um tecido lindo pra colcha da minha futura casa. Quero gastar horas escolhendo a cor do esmalte, quero pintar o cabelo e me sentir diva de Hollywood, quero ver A Noviça Rebelde e cantar saltitando “I’m sixteen going on seventeen”... Quero saia rodada, salto alto que não dói o pé e pescoço virando pra me ver passar sem fazer cara de tarado.
Quero ser conquistada com galanteios apesar de saber ir atrás, quero ouvir coisas doces no dia seguinte apesar de já estar preparada para ele não ligar, quero deixar saudades apesar de saber partir pro próximo. Quero gritar que igualdade de direitos não é para descaracterizar os sexos. Quero cantar Tribalistas sem parecer mal-amada: já sei namorar, já sei beijar de língua agora só me resta sonhar. Quero poder sonhar mesmo tendo que acordar cedo pra reunião, quero que se ofereçam para trocar o pneu do carro que eu ainda estou pagando sozinha, quero que o gerente do banco me ache linda enquanto discutimos se é melhor um fundo moderado ou agressivo.
E já que hoje estou querendo muito, quero não sofrer com a mania de especular sobre o que nem existe, não enjoar na gravidez, não contar celulite nova no espelho, não viver um sobe e desce hormonal, não me dobrar de cólica e não ter crise de choro durante a TPM. Quero poder ser mais macho do que os espalhados por aí sem nunca abandonar meu carro conversível rosa, minha casa com elevador branco, roupinhas de todos os tipos, peitos enormes e cinturinha de violão by Mattel.
Quero acalmar os homens que estão lendo dizendo que exagerei em algumas coisas, mas queria que não tivesse problema se fosse tudo 100% verdade. Porque queridos, às vezes é.
Li'l Dice e os prêmios que não vão para a estante
Quando Jack Nicholson anunciou Crash como melhor filme pensei que ele estivesse brincando, vibrei como se fosse gol. Nada contra Brokeback Mountain, mas acho que o valor ali está mais em ser gay no mainstream do que ser uma bela história de amor, enquanto o vencedor é um nocaute.
O tagline de Crash é “You think you know who you are. You have no Idea”. Ennis Del Mar também não tinha até conhecer o cowboy Jack Twist, ninguém tem até ser posto à prova. Crash é sobre pessoas no limite, a intolerância em que vivemos incomodamente escancarada, os preconceitos que algumas vezes até são pós-conceitos mas erroneamente generalizados. Dá a sensação de que não tem jeito, o mundo é sufocante, o outro é ameaçador e no afã de se proteger as pessoas acabam atacando porque, quem não faz, leva.
Tirando o fato do diretor ser adepto da Cientologia, tudo no final do Oscar foi legal. A equipe oscarizada vibrou com o inesperado, Ryan Phillipe apareceu sorrindo, Matt Dillon não levou ator coadjuvante mas mereceu o crédito pela vitória em conjunto e o Ang Lee não deve ter ficado muito triste, ganhou merecidamente como diretor porque se Brokeback não descambou para a pieguice o mérito é dele.
O discurso de George Clooney deixou a desejar aos politicamente engajados mas agradou a quem acha que, por ser tão charmoso, ele nem precisava ser talentoso: “Não vou ganhar como diretor, né? Mas agora quando falarem meu nome dirão - the Academy Award winner - além de o homem mais sexy do mundo” – inclui na lista “bem humorado”. Judy Dench merecia uma categoria hors-concours, John Stewart seguiu na linha e sacaneou a Academia por ter premiado rappers, Altman emocionou, os números musicais entediaram. Tudo conforme o esperado, até a premiação de Rachel Weisz e a dedicatória dela ao Fernando Meirelles. Esperada e eu assino embaixo.
Sou fã do diretor não só pelo orgulho “seleção-canarinho” mas por ele ter conseguido manter os pés no chão mesmo tendo chegado ao Olimpo - além de ser ótimo no que faz. Em entrevista à Marília Gabriela ele disse que não sente nenhuma pressão em ser sempre genial ou superar Cidade de Deus porque foi fazer cinema em busca de novidades, depois de ter sido consagrado na publicidade. Faz o que quer e dá certo, mas não tem que provar nada para ninguém.
No último domingo cerca de 40 milhões de pessoas viram a melhor atriz coadjuvante agradecer a ele pelo Oscar. CDD está na lista dos 100 melhores filmes do mundo e é o 17o eleito pelo público no IMDB, maior site de cinema da web. Com Jardineiro Fiel Fernando Meirelles já correu todos os festivais sendo premiado e hoje os grandes atores e estúdios correm atrás dele, que só diz que isso é bacana, que seu ponto forte é ser flexível e que ele precisa ter mais foco. Ahan.
A única pessoa no mundo para quem devemos provar alguma coisa somos nós mesmos. O resto é lucro, e o nirvana!