I have a dream
Uma das cenas mais engraçadas de Cidade de Deus é quando Zé Pequeno chama o Buscapé para tirar foto da gangue e fica fazendo pose de mal. Enquanto Buscapé achava que seria morto pela foto ter saído no jornal, Zé Pequeno comemorava a fama.
A inspetora da policia civil do Rio Marina Maggessi disse no programa da Marilia Gabriela que o Rio tem jeito. Que bom! Ela fala sobre a institucionalização da criminalidade carioca, de como a capa do jornal que mostra as façanhas do chefes do tráfico vai parar na parede do quarto das crianças das favelas, onde deveria estar o Bob Esponja. Glamourosa de verdade nessas comunidades não é a rainha do funk, é a rainha do pó. Quando os governantes dizem que no Rio existe um poder paralelo tem festa na boca. Para ela, o crime aqui é tão desorganizado que o Comando Vermelho faliu, hoje quem manda são os jovens que começaram a cheirar aos 10 anos e não passam dos 25. Ali vale a máxima “já que não serei a melhor pessoa, serei a pior”. E fecha-se o túnel. Porque no Rio existe um pensamento estranho onde não é feio contar histórias de malandragem.
Reclamar que é um absurdo não poder passar pela Rocinha, todo carioca reclama. Ficar indignado porque tem arrastão na praia, todos ficam. Comprar maconha para fumar um baseado olhando o mar, o carioca também faz. Então, quando tiver uma arma na cabeça, esse carioca tem que reparar se ali não tem o nome dele como patrocinador. E não adianta ler e pensar “é isso mesmo”, tem que mudar. O carioca não se compromete porque dá muito trabalho mas se a mudança for feita devagarzinho, nem dói.
Se não for por viver uma relação de amor com a cidade, que seja por motivos egoístas que cada um decida mudar de atitude. Eu me recuso a dar dinheiro para o flanelinha porque acho uma extorsão mas se alguém achar uma chatice pensar nisso, que economize esse dinheiro e só pague mediante o talão. Olha que lucro! Segurança não é interesse pessoal? Asfalto decente? Limpeza das ruas? Quem não quiser exercer sua cidadania, que seja fresco! Mas que escolha melhorar o lugar onde mora. É chato ter o carro rebocado, não conseguir pagar a taxa no banco para ir ao depósito apresentar o recibo e resolver a situação. É muito mais rápido liberar o cafezinho do guarda e ir pro bar conversar sobre a pouca vergonha no Congresso. Meu sonho é que um dia isso seja constrangedor.
São as pequenas ações de cada um que fazem o tal mundo melhor. Escolha uma coisa bem simples para melhorar o Rio e passe essa idéia adiante. Basta uma: reclame dos ônibus que ocupam todas as pistas ou chame a atenção de quem joga lixo no chão, exija o recibo no pedágio ou não dê dinheiro no sinal. Se até Maquiavel considerava que armas só deveriam ser usadas quando não há mais nenhuma esperança de solução a não ser a guerra, temos caminhos a serem pensados. Mas é preciso que as pessoas tomem vergonha na cara, que abram mão da saída fácil.
Martin Luther King já teve um sonho – “I have a dream that my four children will one day live in a nation where they will not be judged by the color of their skin but by the content of their character. I have a dream today”. A América não foi tão longe, mas já andou.