No fun
Tem uma época, quando se é adolescente, que seus amigos vão embora para o intercâmbio. E tem uma época, quando acham que você é adulto, que seus amigos vão embora.... para o mercado de trabalho. E alguma coisa divide o meu coração.
É que sempre que eu chego ali nada entendo da dura poesia concreta de tuas esquinas engarrafadas, da elegância sem Havaianas de tuas meninas. Quando te encaro frente a frente não vejo o meu rosto, não tem mar! E Narciso acha feio o que não é espelho. A mente apavora o que ainda não é mesmo velho, mas um dia não vai ter jeito. A força da grana que ergue vai falar mais alto e vai ser um difícil começo, mas não dá para a vida toda afastar o que não conheço.
Vou ser um dos que vem de outro sonho feliz de cidade e aprende depressa a chamar-te de realidade. Da feia fumaça que sobe apagando as estrelas vou ver surgir teus poetas de campos e espaços, teus deuses da chuva. E serei mais uma carioca passeando na tua garoa, mais uma carioca aprendendo a te curtir numa boa. Até poder voltar para Ipanema, seja para a praia ou para a Travessa.
Minhocas, meninas e araras
A vida era fácil no paraíso. Adão marcava pelada com os amigos sábado à noite e Eva simplesmente acreditava, Eva se dava bem com os ex-namorados e Adão não ficava remoendo o fato (em nome da moral da história, finge que existiam esses figurantes). Um dia Eva tarrou uma maçã da árvore e aquela minhoca que fica nas frutas foi parar na cabeça dela, destruindo toda a harmonia do mundo.
Nunca mais a vida foi leve, e apesar de toda a evolução da ciência nem Freud descobriu como eliminar o bicho. Ninguém mais conseguiu viver sem pensar nas consequências, sem fazer um congresso de minhocas para tomar qualquer decisão. Só que bons momentos não são burocráticos, eles passam. A minhoca é o “e se...”, o nó na garganta que às vezes vem até por antecedência, o diabinho que fica atrapalhando a felicidade e se alimenta de tudo que não se sabe. E não se sabe de quase nada.
Existe uma conquista que apesar de ser a small step for humanity é um big step para quem chega lá: é quando no meio de minhocas, incertezas, medos e especulações sentimos o gostinho do melhor lugar do mundo ser aqui e agora. E como sempre temos que voltar para a realidade, chegar à lua é acreditar que valeu a pena. Senão a vida vira commodity. Drummond escreveu: "a cada dia que vivo mais me convenço de que o desperdício está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca. E, esquivando-nos do sofrimento, perdemos também a felicidade".
Na falta de uma equação perfeita de vida, pode-se encarar o absurdo do imprevisto. Arriscar ir em frente com o restinho de fé arrogante que ignora a minhoca.
Complementando Drummond, que piada, Sex and the City: “Have fun, just don't have amnesia”.