Exorcizar é preciso
A National Geographic publicou um papiro de 1700 anos que mostra Judas como um personagem benéfico, o favorito de Jesus, que só teria feito o que o mestre lhe pedira. O texto começa com a frase "O relato secreto da revelação dita por Jesus em conversa com Judas Iscariotes", e diz que houve uma conversa privada entre os dois onde Jesus teria dado ordens para que Judas o entregasse.
Então Judas teria sido o eleito para libertar Jesus de seu corpo terreno e com isso salvar a humanidade? Procurar razões por trás dos atos óbvios é coisa de apaixonado que não quer enxergar a realidade da canalhice. Já pensaram que pode ter dedo de advogado aí? Os microfones do Fantástico estavam ligados, captaram as conversas em off?

Descobrir que Judas Iscariotes não é culpado na véspera da Semana Santa pode fazer com que uma pessoa passe mais dez anos na terapia. Estudei em escola católica a vida toda, confesso que abandonei os ensinamentos no caminho mas não estou preparada para mudanças tão drásticas nas verdades absolutas da minha criação. O que devo fazer agora? Descobrir se deixei de ver algum outro evangelho na minha história? Repensar todos os meus culpados, traidores, inimigos de fé? Nem tenho inimigos de fé, mas e se eu tivesse? Quem a National Geographic pensa que é para abalar a coisa assim? Concordo com o Zuenir Ventura: a uma vida sem heróis já me acostumei, mas sem vilões não dá. Se o mundo já vinha dando sinais de estar ao contrário, olha agora!

E o que vamos fazer na Páscoa, comer ovo? Quem achar que não é hora de malhar o Judas, melhor nem ter Semana Santa e aguardar informações mais precisas. Eu já tenho a minha listinha de Judas e todos serão devidamente malhados como manda a tradição. No Brasil isso existe desde o século XVIII, quando os bonecos eram feitos com roupa e tecido de palha e ainda colocavam bombas dentro dele para explodir depois do enforcamento. Olha que catarse!
Se essa absolvição do arquétipo-mor da vilania ainda existir no ano que vem, prometo repensar sobre os meus Judas. Mas esse ano já está combinado, prepare seu vuduzinho e exorcize seus demônios!
Aonde você vai correndo tanto?


Acorda cedo e corre para São Paulo para participar de um congresso sobre IPTV, letrinhas que serão o futuro da televisão. No caminho, o desespero: esqueceu de programar o DVR para gravar Lost à noite! Aparelho ainda estranho ao Brasil, os digital video recorders estão em 10 milhões de casas americanas. Os donos viciados selecionam nos canais o que querem ver naquela semana, montam a programação e nunca mais assistem TV zapeando e com comerciais. A primeira palestra começa e ela só lamenta que se tivesse um laptop e vivesse em outro país, poderia programar a gravação via web e quando chegasse em casa encontraria Jack, Sayid e os outros sobreviventes esperando por ela.


 


A palavra da moda é convergência. Unindo TV e computador pode-se ver na mesma tela os programas preferidos e também os indicados pela operadora de acordo com os hábitos do assinante, sintonizar diferentes canais ao mesmo tempo,  conversar via messenger, fazer video-conferência usando webcam, identificar as ligações do telefone fixo, acessar as pastas do PC, mandar SMS... Graças a uma saída USB pode-se passar o conteúdo armazenado no DVR para o Ipod e assistir em qualquer lugar. Já fazendo planos, ela ouve que vai poder programar suas preciosas gravações pelo celular, claro! Este também é conectado à internet. Olha para o aparelhinho com vários SMS esperando resposta e lembra que há poucos anos ele era um StarTac.


 


O último palestrante mal acaba de falar e ela já correu de volta para o aeroporto. No táxi que leva quase uma hora da Paulista até Congonhas lê artigos que imprimiu para a viagem. Um conta que Bill Gates trabalha num computador Dell com três monitores onde as telas são sincronizadas para formar um único desktop. Ele pode arrastar itens de uma tela para a outra. Quando lê um email, a tela à esquerda tem a lista de mensagens, no centro fica o email aberto e o browser fica na tela direita. Justificativa para a parafernália: “Quando você tem tanta área assim, nunca mais vai querer outra coisa! Tem um impacto direto sobre sua produtividade”.


 


Ela senta no avião, lê o boletim com as notícias do dia e enquanto janta um sanduíche luxuoso da TAM folheia a revista de bordo. Os olhos param em um anúncio da companhia aérea. Abre um sorriso irônico e suspira. Pousa no Santos Dumont e pensa: que bom que os fingers ainda não estão prontos, dá para apreciar a Baía de Guanabara!


 

Hard and twisted thoughts that spin round my head

Um dia você tem que escolher seu time de queimado no recreio. Outro dia tem que escolher se larga a Coca-Cola e vai dançar música lenta com ele. Mais tarde tem que escolher se vai pra festa ou continua a estudar para a prova. Depois tem que escolher se viaja ou aplica o dinheiro. E quando olha para trás e se orgulha por ter escolhido sempre tão bem, parece que está num jogo de vídeo-game: a cada fase, maiores os desafios. E um dia você não consegue escolher. Não sabe se casa, não sabe se sai de casa, não sabe se pede demissão, não sabe se conta que sabe, não sabe se investe naquilo. E lembra dos seriados mais bobos que te acompanharam até aqui, lembra de Felicity! “You have to make your own choices, even if some of them are mistakes”.

Pode comer o lábio, pode parar de comer, pode comer até explodir. Pode chorar, pode tentar esquecer, pode fingir rir, até decidir não escolher já é um caminho. Ninguém pode escolher por você, pode enfrentar. Chamada de Felicity, uma voz em off dizia “sometimes are the smallest decisions that can pretty much change your life forever’. Forever.

Nós sempre sabemos. Se você sentar sozinho, se concentrar até o barulho em volta virar silêncio e ouvir a si mesmo, vai achar a resposta. Mesmo que aquela resposta venha a contradizer o que esperam de você, mesmo que sua razão seja mais forte e você decida seguir outro caminho, mesmo que você acredite que deve arriscar uma saída diferente, aquela é a sua resposta interior. E aí vem outra pergunta: intuição faz andar três casas ou ficar uma rodada sem jogar?

Forever é muito tempo.

 

E um dia você não consegue nem escolher um título e simplesmente escreve a primeira música que vem à cabeça: Black, Pearl Jam. "I know someday you'll have a beautiful life, I know you'll be a star".




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