Good grief
Quem te conhece não esquece jamais
*Há um vilarejo ali
Onde areja um vento bom
Pra acalmar o coração
Lá o mundo tem razão
Lá o tempo espera
Lá é primavera
Portas e janelas ficam sempre abertas
Pra sorte entrar
Tem um verdadeiro amor
Para quando você for

Era uma vez Tiradentes, uma praça com bares ao redor onde se senta para ver a vida passar bebendo Antarctica Original. Era uma vez um palco na praça, um grupo que toca sertanejo, jovem guarda e marchinhas, um cantor com camisa dourada sob a capa preta e uma gente que dança fazendo trenzinho. Era uma vez ruas de pedra com casarões coloniais, charretes que fazem do casco dos cavalos no chão a trilha local e um chafariz onde eventualmente se bebe água.
Era uma vez um lugar chamado Bichinho onde as pessoas não sabem o câmbio do dia, não se importam com os fusos horários e nunca ouviram falar em CEO. Nesse lugar existem cachorros, crianças e velhos pelas ruas de terra, antenas parabólicas e varais nos quintais e casas com cerca de bambu. Lá não existem eleições na Itália, auto-suficiência em petróleo nem enriquecimento de urânio. Lá não existe angústia.
Era uma vez uma região lendária na Grécia chamada Arcádia, que representa a comunhão entre homem e natureza. Era uma vez o final dos anos 1700; um movimento literário chamado Arcadismo onde a natureza é vista como último refúgio da verdade e da beleza. Era uma vez o bucolismo mineiro. Era uma vez Tomás Antônio Gonzaga, que aos 43 anos se apaixonou por uma adolescente de 17 e criou os versos de Marília de Dirceu. Era uma vez Bárbara Heliodora, uma das primeiras mulheres a escrever poesias no Brasil e a participar da vida política ao lado do marido inconfidente.
Era uma vez uma região que enriqueceu com a mineração, uma Coroa Portuguesa que cobrava impostos abusivos sobre as riquezas da colônia e um grupo de conspiradores que tramou a Inconfidência Mineira. Era uma vez Joaquim Silvério dos Reis, que delatou os companheiros em troca do perdão de sua dívida com o governo. Era uma vez um país onde as revoluções atendiam ao interesse da elite financeira, não a ideais de liberdade do povo. Era uma vez um alferes que serviu de bode expiatório de um movimento elitista e acabou enforcado, esquartejado, dependurado em postes ao longo do caminho que ele tantas vezes percorreu, declarado infame e virou mártir. Era uma vez o Iluminismo, que dizia que o homem nasce bom mas é corrompido pela sociedade.
Era uma vez um lugar onde daria tempo para ouvir os novos cds da Marisa Monte, do Chico, do Nando Reis, daria para ler o novo livro do Irvin Yalom, do Nick Hornby, daria para meditar duas vezes ao dia. Era uma vez um lugar onde é simples fazer o que é simples. Era uma vez um lugar onde pode-se jogar fora o relógio, comer mandioca frita, frango caipira e doce de leite quando se tem fome e beber pincumel o dia todo. Era uma vez um lugar onde fica difícil saber oncotô, doncovim e proncovô. Era uma vez uma bandeira com o lema Liberdade ainda que tardia.

*Marisa Monte



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