Ele não vai ser sempre perfeito daquele jeito, nem vai te achar tão encantadora. Não vai para sempre perguntar por que diabos você não está casada com um marido que te trata como uma rainha, com filhos fofos e eternamente comprometida, nem você vai pensar se é mesmo possível tudo aquilo estar disponível nos dias de hoje, e ainda por cima te dando tanta atenção quando existem milhares de mulheres no mundo. Nem passa pela cabeça que não vai durar muito o fato dele estar impressionado porque a menina mais linda do planeta está sem nenhum macho cercando. Que precisa acordar cedo no dia seguinte e já deveria estar em casa há horas.
Esquece de filtrar todo aquele charme e racionalizar se existe algum futuro. Nem por um segundo você cogita a possibilidade de por trás de tanto empenho existir um psicopata dependente e ciumento. Que ele pode ser um grande mentiroso e destruir seu coração em poucos dias, que da última vez jurou nunca mais ser boba assim, que há pouco tempo estava acabando com o estoque de lenços da casa secando o vale de lágrimas derramado por quem começou do mesmo jeito. Esquece que juraram que você ia adorar o amigo dele que ninguém lembra mais onde foi parar, que ele vai te roubar o prazer da solidão, que vai passar essa vontade ingênua de ficar e não pensar em nada.
Esquece completamente que precisa disfarçar a taquicardia, falar menos e parar de esbarrar nele, que daqui a pouco ele não vai mais precisar inventar motivo para tocar em você. Nem nota que milhares de vezes ele vai pensar em te beijar e desistir com medo de ser precipitado, que existem pessoas ao redor reparando no seu sorriso bobo e que você não pára de mexer no cabelo. Esquece que os olhos dele nem sempre vão estar te seguindo, que a música está alta mas ninguém ao redor está falando tão perto do ouvido alheio, que nem sempre ele vai pagar mais uma bebida torcendo para aquilo dar um porre de coragem. Esquece de guardar um pouco da sua versão adorável para depois, esquece que ele não vai falar de você pros amigos com reticências e uma gargalhada sem graça todas as vezes, não vai se culpar por ter perdido tanto tempo com as outras tendo você tão perto. Que a aranha da parede vai considerar usar vocês como suporte para a teia se não saírem dali. Que as suas amigas estão dormindo no carro esperando você chegar flutuando, que se você ficar mais feliz vai começar a pular e isso vai ser estranho.
Esquece que isso não acontece todo dia, nem por toda a vida. Na próxima vez, tenta lembrar. E não esquece de guardar para sempre.
Chico Buarque anda causando polêmica por dizer que fumou maconha, que São Paulo não é nem detestável (é invivível!), que já broxou, que votaria novamente no Lula... Nada se iguala ao que ele confessou a mim em Paris.
Romance começou com aqueles olhos de elogios-clichê passeando por Montmartre. Chico falava sobre canções de amor, que elas pressupõem uma certa ingenuidade. Corre-se o risco de deixar de ser espontâneo com o tempo, quando mais velho já não se compõe com o desconhecimento dos 20 anos onde pouco se sabe da vida e pouco se sabe do amor. Naquele verão parisiense Chico revelava as muitas vezes em que música o levou a um estado de exaltação sentimental e o fez transformar em letra o que, por pudor, nunca diria a seco. A música nos faz a regredir um sentimento que já foi superado e permite esses arroubos por não querer inteligência, querer ser uma canção de amor e só. Só...
Andávamos pelo Marais e ele cantava que queria ser um tipo de compositor capaz de cantar nosso amor modesto, um tipo de amor que é de mendigar cafuné, que é pobre e às vezes nem é honesto. À noite sentamos às margens do Sena, o mais romântico lugar da mais romântica cidade, para lembrar que nossos avôs usavam cartas no amor. Vovô apaixonado, na falta de talento literário, se utilizava de poemas famosos para conquistar a vovó amada. Chico explicava que daí surgiu o piropo, galanteios que a canção passou a declamar, e hoje os namorados usam essas composições no lugar das extintas cartas de amor. Achou graça ao lembrar que Vinicius de Moraes era o mestre do piropeiros. “Mais do que eu, aprendi muito com ele!” Confessou que no começo não conseguia fazer aquelas canções de amor que o Poeta escrevia, falava de amor mas não como cantada, não se dirigia a uma mulher para dizer coisas bonitas. Cantou baixinho Minha Namorada e eu, como todas as mulheres derretidas, fiz silenciosamente o juramento de ser só dele até morrer. Foi aí que ele riu, balançou a cabeça e disse em tom de piada sobre a música: “Qualquer mulher cai num piropo desses, né? É de amolecer coração de pedra!”
Como? Mas... era tudo armação? Sem culpa seguiu como um trator revelando que as canções não são confessionais, ele fica mais à vontade na pele de outros personagens! Deu como exemplo A Bela e a Fera: “abre teu coracão ou eu arrombo a janela”! E riu, chamando a obra de piropo violento... Aqueles olhos desgraçadamente verdes na frente daquele rio sujo com aqueles bateaux mouches cafonas ainda ousaram lembrar da canção que o pai cantava, “e por sonhar o impossível sonhei que tu me querias”. Se divertiu imaginando a mulher caindo de joelhos, apaixonada, gritando que oh, não é impossivel! Ficou achando a cena muito engraçada, indiferente à decepção que causou no meu estraçalhado coração mangueirense.
Me atirei no Sena arrasada por ter acreditado naqueles piropos estúpidos, cantadas baratas de um conquistador profissional. Como mulheres são burras, facilmente enganáveis!
O documentário segue e passa pela Torre Eiffel, anoitece em Paris. Chico fica ali sentado sorrindo e contando das noitadas na casa do Francis Hime. Danem-se os astros, os autos, os signos, os dogmas, os búzios, as bulas, anúncios, tratados, ciganas, projetos, profetas, sinopses, espelhos, conselhos, se dane o evangelho e todos os orixás. Serás o meu amor, serás a minha paz.
Nada aconteceu. Apenas seguirei como encantado ao lado teu.
Se caímos nas mentiras de tantos outros menos talentosos... É o Chico.
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