Desejo, necessidade e vontade
O projeto inicial previa duas versões de humanos. Uns nasceriam com cérebro, outros com coração. Dizem que por falta de verba para dois modelos acabou sendo lançado um híbrido. O fato é que ao longo do tempo verificou-se que um dos dois apetrechos tendia a prevalecer em cada pessoa, acentuando as características correspondentes, mas alguns modelos apresentavam bugs devido à incompatibilidade dos sistemas. Então surgiram estudos para entender o que causava as ocasionais divergências. Buscavam melhorar a vida dos que sofrem por não agir como supostamente deveriam, os que sempre sentam diante de uma bifurcação, os que agem racionalmente despedaçando seus corações, os que seguem seus impulsos se culpando por saber que aquela é a decisão errada e similares. Começou-se a prestar atenção nas razões e não apenas nas atitudes porque a coisa parecia mais difícil para esses que supõem o céu, os que cantam que é preciso força pra sonhar e perceber que a estrada vai além do que se vê. Além para onde? Teriam problemas de visão?
Faltavam três episódios para acabar The West Wing. A dez semanas da posse do novo presidente, Josh Lyman, futuro chefe da Casa Civil, vai atrás de um velho companheiro na Califórnia para convencê-lo a largar o salário milionário de advogado e assumir a vice-chefia de gabinete. Sam Seaborn alega que pode continuar fazendo o bem em seu escritório, longe da pressão que vai obrigá-lo a mal ver a esposa e perder seus fios de cabelo como servidor público em Washington numa jornada de 16 horas diárias. Por que iria? Análise cerebral, inviável. Então por que duvida?
A variável “é a primeira vez que teremos uma Câmara democrata e um presidente latino” foi considerada na análise. A palavra “acreditar” parecia acionar algum mecanismo relacionado à causa de cada um, à convicções, expectativas. O que move as pessoas? Elas não querem só comida, querem dinheiro e felicidade? Notaram-se diferenças entre o certo e o verdadeiro no sistema de alguns analisados. Esses apresentavam bugs. Em comum pareciam precisar criar justificativas para legitimar decisões tomadas pelo equipamento recessivo, o que gera lágrimas nos olhos. Sofrem.
No final do episódio Sam está trabalhando com a equipe de transição do governo, de volta à sua antiga sala. “Não vim pra cá porque cansei de ver o sol em pleno inverno. O presidente-eleito pode ser o futuro que este país está querendo, pode ser o cara certo no momento certo e, se for, eu quero fazer parte disso”. Pessoas com bugs querem a vida como a vida quer. Ficou confuso resolver, os estudos nunca foram concluídos e a história seguiu. O episódio que revela se o além de Sam dá no abismo ou na satisfação pessoal vai ao ar na Warner no dia 9.
Fundació Juan Miró, Barcelona

*Deagan: So, what's your opinion on modern art?
Cathy: It's hard to put into words, really. I just know what I care for and what I don't. Like this... I don't know how to pronounce it... Mira?
Deagan: Miró.
Cathy: Miró. I don't know why, but I just adore it. The feeling it gives. I know that sounds terribly vague.
Deagan: No. No, actually, it confirms something I've always wondered about modern art. Abstract art.
Cathy: What's that?
Deagan: That perhaps it's just picking up where religious art left off, somehow trying to show you divinity. The modern artist just pares it down to the basic elements of shape and color. But when you look at that Miró, you feel it just the same.
*Far from heaven
A hard day's night
Um ser abalado por achar que não vai conseguir fazer nada. Cansada de construir um sentido para o mundo em que vive, saber de si e dos outros, queria tirar férias de mim e por um tempo ser resultado de uma idéia pré-existente. Poderia ter nascido uma caneta, que nasceu para ser caneta e apenas é. Essência definida. Trocaria a liberdade de mudar minha vida pela certeza imutável do que já vivi. Mas nem é certeza, muda sempre o ponto de vista. Aumenta a exaustão.
E se eu falhar na minha essência, se minha existência for estragada pelas minhas trapalhadas e incompetência? Fui condenada à liberdade mas não me lembro de ter assinado esse acordo, não aceitei as regras. Quem não consegue comprar uma roupa vai falhar no projeto fundamental. E eu não decidi ainda qual é o meu projeto fundamental, já devo estar atrasada no cronograma, não aprovei orçamento nem selecionei equipe, não fiz o treinamento, eu vou falhar.
Então sou responsável pelo mundo que projetei. Pelo mundo todo eu levo a glória ou a culpa sozinha! Por que eu acho que vai ser culpa e não glória? Angústia previsível com tanta responsabilidade existencialista sobre as minhas costas. Eu quero o universo do sonho, isso é liberdade. Poder realizar qualquer coisa instantaneamente e não ter pessoas cutucando para avisar que não é bem assim, que são escolhas parciais e não livres, opções limitadas.
Não é verdade que nada fora de mim define meu futuro. Os outros atrapalham, criam conflitos com projetos sobrepostos. Eles não serão punidos, obrigados a participar do meu plano? Inferno os outros. Coloca no acordo outra forma para que eu me veja que não seja através dos olhos deles. Ou me dê outros que me ajudem.
E se eu nem sempre tiver consciência da conseqüência dos meus atos? Quero férias de conseqüências, pausa na consciência. Alguém podia se responsabilizar pelas minhas decisões enquanto eu descanso um pouco. Posso ao menos voltar atrás? Undo? Desmake. Não estou fugindo da minha auto-determinação mas quero conversar sobre o meu destino, preciso saber se dá para contar com ele. Nunca li o último capítulo do livro antes de chegar lá, nunca baixei nenhum episódio de Lost que não tenha sido exibido, posso pelo menos saber se na minha história eu vou dar certo no final?
Eu, que por vontade própria ajo e afeto o mundo todo, peço licença. Preciso confessar que talvez não seja capaz. Nem sempre é justo o que o mundo faz comigo, ele podia me dar o caminho mais fácil. Eu aprenderia, juro que aprenderia. Me ouve, Sartre! É importante sim o que o mundo está fazendo comigo! Não sei o que eu vou fazer com o que o mundo está fazendo de mim!
Eu aceito o acordo, com uma condição: de vez em quando, posso chorar?