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To be hired
Cena 1, take 1: o funcionário reúne seus trapinhos dentro de uma caixa de papelão e sai do escritório levando milhares de papéis, canetas, porta-retrato e tudo mais que existe na sala.

Cena 2, take 1: o funcionário faz um backup, leva o CD para casa e não morre de alergia porque não precisou esvaziar gavetas empoeiradas. Em compensação, gastou horas abrindo todos os arquivos do computador para separar o deletável do salvável, reler todos os emails guardados e redefinir a importância daqueles assuntos velhos. Para facilitar a morte do Outlook nasce um novo Gmail, que saúda o usuário com um “Não jogue nada fora”.

Um comprimido de Claritin mata a alergia mas só o tempo explica como coisas tão importantes passam a banais sem que nos demos conta. Dez horas por dia, cinco dias na semana durante três anos fazem com que se perca completamente a noção de como é a vida fora daquele lugar, sem aqueles assuntos, longe daquelas pessoas e sem aquele computador que foi a presença mais constante nos últimos tempos. São milhares de bytes gastos com especulações sobre assuntos que sequer passaram da tela para a vida, estratégias traçadas para conseguir o que se quer (ou quem se quer), fotos que revelam uma vantagem das digitais sobre os álbuns que jamais seriam organizados. Até mantra de yoga que deve ter sido recomendado em algum momento de desespero aparece, mensagens telegráficas mandadas entre uma reunião e outra sobre questões muito menos urgentes do que os dramas pessoais, planilhas de metas que perderam a razão de ser. Linhas e mais linhas de debates sobre seriados, filmes, livros, notícias e análises de cada vírgula de conversas vividas, além de referência a todos os emails deletados para que não houvesse chance de responder. Como se engolem sapos cibernéticos!

Com um clique o login na rede é desativado pelo RH e o funcionário desaparece do sistema como personagem de ficção científica. É importante deixar marcas mais difíceis de serem apagadas. Ficam ali as tantas disputas de poder e rosnadas para defender um território agora abandonado, críticas sobre a invalidez em caso de ausência, sonhos envolvendo aviões que partiam diariamente para todos os destinos do globo (em uma época em que a Varig ainda voava), divagações e discussões, início, meio e fim de relacionamentos mais debatidos do que vividos, relatos das piadas que Deus prega quando está entediado e lutas por quereres que, daqui a pouco, até podem voltar a valer, mas na hora da saída revelam-se pouco úteis. Ficam os projetos realizados e levam-se as experiências vividas.

Primeira mensagem do Gmail: mudar é bom! Verdade, mas nem tudo que se quer carregar pode ser convertido em um arquivo CSV.

Cena 2, take 2: o funcionário não acredita no Gmail e joga muita coisa fora. Sai bem mais leve deixando tudo para trás. Ou quase tudo.
Debaixo dos caracóis dos seus cabelos

A felicidade pode vir em cápsulas e o futuro em drágeas, mas é melhor quando vêm em forma de gente.

 

Você sempre anda na linha, fica atenta às estripulias do coração e tem os olhos bem abertos o tempo todo. De repente, do meio da multidão verde-amarela-azul-e-branca que tem no mundo, aparece alguém de surpresa e muda tudo. Quando percebe, você já está cantando Elvis: I just can’t help believing when he smiles up soft and gentle with a trace of misty morning and the promise of tomorrow in his eyes. E agora, José, quem é esse desconhecido e o que fazer com ele? E se ele for um psicopata? Pior, se gostar de ir ao Cinemark? Se for um guerilheiro boliviano que viaja pela América do Sul em boléia de caminhão de aipim? Torcida não fez o Brasil ser hexa, será que conta ponto em outros jogos? Vai achar que seus amigos estavam certos ao dizer que você precisa mesmo é de um psicanalista 24 horas.

 

Em pouco tempo você começa a delirar, ver coisas onde nada existe e... quem é aquele ali no canto? Raul Seixas vai aparecer sentado ao seu lado e você vai preferir ser uma metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo (inclusive sobre Raul Seixas). Não, Raul, não tem nada nesse mundo que ela saiba menos do que sobre relacionamentos. Você não conhece o cara e não pode fazer um interrogatório nem pedir referências, sente inveja de Proust e seu questionário. O que ele mais admira em uma mulher, qual o principal defeito, qual o conceito de felicidade, em qual ocasião mente, qual o escritor preferido? O que vai acontecer na próxima cena? Você pensa em Calvino e recorre aos clássicos, vai pedir ajuda a Goethe, Dostoievski, Huxley, TS Elliot, só para descobrir que nem uma parede lotada de autores consagrados ensina a ler o outro.

 

Porque não tem regra não, não tem manual nem estudo que entregue a fórmula. O que existe são pistas conquistadas através da convivência, construção na base da tentativa, acerto e erro. Um pouquinho hoje, mais outro pouquinho amanhã. Você vai sair do divã, pedir licença a Freud, Jung e Lacan para entender o processo de uma forma bem menos rebuscada. Quem faz caminhadas diz que o melhor não é chegar, mas o que se vive pelo caminho. Com as pessoas deve ser assim, não importa tanto o que vai acontecer no futuro, valem as descobertas do percurso.




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