Já eram sete da noite de um dia cheio na feira que reunia um dos mercados mais promissores do momento. Duas conferências encerrariam os trabalhos: numa sala, Franklin Martins falaria quais as perspectivas políticas e econômicas para 2007, na outra, o Professor Gretz faria uma palestra motivacional. Ele faz questão de dizer que é autor do livro que Felipão usou para incentivar a equipe de Portugal na Copa. “Falo porque temos que dividir com os outros nossas vitórias”, justifica, recebendo uma salva de palmas das cerca de 300 pessoas que lotavam o auditório. Aos poucos a sala que falava do presente foi lotando e a que falava do futuro foi perdendo quórum. Mas quem ainda precisa de Paulo Coelho, padre Marcelo Rossi e todas as baboseiras de auto-ajuda que vendem a felicidade por alguns reais? Muita gente.
O Professor começa fazendo piada sobre a desastrosa campanha do Corinthians, segue avisando que não falará ali nenhuma novidade além do que todos já sabem mas às vezes esquecem, e em poucos minutos os nós de gravata são afrouxados para cantar o Xote da Alegria. Nem todos naquela sala trabalhavam nas forças de venda das empresas (seres afeitos a estripulias motivacionais), mas eram todos pessoas com contas a pagar, responsabilidades e projetos. O que leva um assalariado exausto a cantar “se acaso você diz que pensa um dia em ser feliz vê se fala sério” gargalhando num centro de convenções numa noite gelada de São Paulo? “Não existe ateu no mundo”, entrega o Professor, “desliga as turbinas de um avião lotado em pleno vôo e vê se alguém não reza”.
Parece um culto, chega a assustar, e vou embora ouvindo as palmas da platéia que tem a alma tristemente lavada com tão pouco.
Nem sempre as coisas são fáceis extremamente fáceis como na canção, e mesmo quando estão bem tem sempre um porém, alguma vírgula do passado ou incerteza no futuro que parece estar só esperando ser cutucada para reaparecer e ficar maior do que a tranquilidade. Não é todo dia que nos apaixonamos, nem todo dia que superamos uma paixão maléfica, nem sempre alguém entra na nossa sala para dizer que vamos fazer falta, poucas vezes recebemos um abraço verdadeiro, raramente ouvimos alguém dizer que somos importantes. Não realizamos grandes obras todos os dias, não conquistamos bons amigos a toda hora, não faturamos uma bolada com freqüência nem conhecemos lugares fascinantes o tempo todo. É em cima desses outros momentos que os professores Gretz fazem uma sala cantar.
Se guardássemos menos roupas novas para uma noite que ainda vai vir, se tomássemos logo o vinho que não abrimos esperando pelo momento especial, se nos dedicássemos com toda a nossa força tanto no começo quanto no fim, o Franklin Martins seria o único palestrante daquele fim de dia. Teríamos que ouvir menos vezes os clichês entusiastas de carpe diem. Se tudo sempre acaba mesmo, nos despediríamos com lágrimas sinceras só porque é triste um fim, mas tendo a certeza de que vivemos tudo o que poderia ser vivido fazendo tudo o que poderia ter sido feito, levaríamos os aplausos e teríamos a calma de saber que tudo bem, vai tudo dar certo. Todos os dias.
Uma mesa com os CEOs das mais importantes empresas de TV por assinatura e o novo player – uma empresa de telecom. As crianças brigam para não deixar o coleguinha usar seus brinquedos e discutem as estratégias que cada uma vai usar para conquistar clientes. A arma secreta, palavrinha mágica: convergência. TV, internet banda larga e telefone. Cama, mesa e banho. Pai, mãe e filho. Namorado, melhor amigo e crise de ciúmes. Vem num pacote, tem que aceitar...
O ideal seria uma convergência geral, misturar as coisas, montar um combo e colocar no mercado. São Paulo teria as cores do Rio e o Rio teria o dinheiro de São Paulo. Num triple play uma mesma cidade poderia oferecer mercado de trabalho, qualidades naturais e opções de entretenimento tanto diurnos quanto noturnos. Poderiam existir outras opções como dinheiro, bons restaurantes e Bracarense, ou prestação de serviços e praia numa cidade menor ou cidade grande com pouco trânsito e sem salto alto/terno. Outros setores da vida também teriam que se adequar à nova tendência: um mesmo amigo que gostasse de badalação, fosse ótimo confessor e trabalhasse na mesma área que você. Um que apresentasse as pessoas mais legais, fosse ótima companhia para viajar e estivesse sempre de bom humor. Um trabalho que pagasse bem, desafiasse e desse muito prazer. Um namorado que fosse a melhor companhia para todas as horas, um amante de fantasia erótica e soubesse a hora exata de se afastar para não enjoar ou sufocar. Mas quem enjoa de um namorado desses? E com amigos completos quem precisaria de vários? E como seria um amigo completo? E esse modelo de namorado agrada a 100% do mercado? Como ficaria o resto? Voltaríamos a passar a vida inteira fazendo o mesmo trabalho? Uma cidade dessas teria espaço sobrando? Ou teria gente que gostasse? São Paulo sem a garoa ainda é São Paulo? Amigo sem folga continua amigo? Namorado sem imperfeição ainda é perfeito?
Melhor deixar como está. Assina o pacote da operadora que oferecer as melhores vantagens para o seu caso e continua vivendo no seu lugar possível cercado pelas suas pessoas defeituosas. Talvez falte ainda pesquisa para embasar esses outros modelos de negócios.
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