Os sonhadores
 

(...) "Não me cabe dúvida de que Günter Grass é o último dessa estirpe, à qual pertenceram um Victor Hugo, um Thomas Mann, um Albert Camus, um Jean Paul Sartre. Acreditavam que ser escritor era, ao mesmo tempo que fantasiar ficções, dramas ou poemas, agitar as consciências de seus contemporâneos, animando-os a atuar, defendendo certas opções e rechaçando outras, convencidos de que o escritor podia servir também como guia, conselheiro, animador ou dinamiteiro ideológico sobre os grandes temas sociais, políticos, culturais e morais e que, graças à sua intervenção, a vida política superava o mero pragmatismo e se tornava gestora intelectual, debate de idéias, criação.

 

Nenhum jovem intelectual de nosso tempo crê que essa seja também a função de um escritor, e só a idéia de assumir o papel de “consciência de uma sociedade” lhes parece pretensiosa e ridícula. Mais modestos, acaso mais realistas, os escritores das novas gerações parecem aceitar que a literatura não é nada mais – não é nada menos – do que uma forma elevada de entretenimento, algo respeitabilíssimo, pois divertir, fazer sonhar, arrancar a sordidez e a mediocridade em que está mergulhado na maior parte do tempo o ser humano, não é por acaso imprescindível para fazer a vida melhor, ou pelo menos mais vivível?


(...)
Melhor aceitar que os escritores, pelo simples fato de sê-lo, não têm que ser nem mais lúcidos nem mais puros nem mais nobres do que qualquer outro bípede, esses que vivem no anonimato e jamais chegam às manchetes dos jornais.

 

Talvez essa seja a razão pela qual, ao revelar sua passagem fugaz pela juventude nazista quando era adolescente, Günter Grass tenha virado alvo de críticas nesses dias. Não é ele. São críticas contra esse ideal de escritor que ele encarnou, com paixão, ao largo de toda a sua vida: a do que polemiza sobre tudo, a do que quer que a vida se molde aos seus sonhos e às suas idéias como acontece com as ficções que ele cria, a do que crê que a do escritor é a mais formidável das funções porque, além de entreter, também educa, ensina, guia, orienta e dá lições. 

 

Esa era otra ficción con la que nos hemos estado embelesando mucho tiempo, amigo Günter Grass. Pero ya se acabó."

  http://www.lanacion.com.ar/836820
 

Mario Vargas Llosa, sobre a repercussão que teve a revelação do escritor alemão Günter Grass de que pertenceu à juventude nazista aos 17 anos. Gunter Grass ganhou o Nobel de Literatura há 7 anos. Vargas Llosa é escritor e concorreu à Presidência do Peru em 1990, tendo sido derrotado por Fujimori.

La vida es como te la tomás

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(peso na consciência)

 

Os poderes de Greyskull

Você pode acordar e ir trabalhar ou faltar e ver todas as estréias da locadora. Pode vestir um terno ou decidir que hoje vai casual mesmo que não seja Friday. Pode almoçar no restaurante ali da esquina ou andar mais um pouco e arriscar um novo. Pode ir para a academia de noite ou caminhar no parque ouvindo musica. Pode dormir com a TV ligada ou ligar para alguém com quem não fala há tempos. Pode ver se tem outro caminho ou seguir naquele mesmo já seguro e conhecido.Você pode fazer Administração, Direito ou Economia ou pode não fazer faculdade por um ano para estudar línguas, arte e viajar por aí. Você pode se formar e começar uma pós-graduação ou descobrir que não tem idéia do que quer ser quando crescer. Pode fazer musculação ou pilates ou não fazer nada. Pode nunca sair de casa sem estar besuntada de protetor solar ou torrar no sol e usar biquíni branco no inverno. Você pode ficar com todos os caras que te olham ou não gostar nunca de ninguém. Pode reclamar do que te incomoda ou esperar para ver se passa.Você pode guardar muito dinheiro para ter um carro zero ou andar de ônibus e ter mais sapatos do que Imelda Marcos. Pode tocar vários instrumentos ou entender sobre musica o tanto quanto o I-Tunes permite. Pode ligar para ver se volta ou acreditar que o que passou, passou. Pode saber de cor quantas calorias tem em cada alimento ou fechar a boca sempre que a calca jeans apertar. Você pode ler todos os clássicos ou os quadrinhos do jornal. Pode sair todas as noites ou dormir oito horas por dia. Pode falar com seus amigos toda hora ou deixar scraps de vez em quando. Pode viver num apartamento onde, se entrar correndo, cai pela janela ou pode ligar para seus pais avisando quando não vai dormir em casa. Pode anular seu voto ou se esforçar para entender os projetos de cada candidato. Pode conversar para chegar a um acordo ou desistir porque não vale a pena.

 

Você não pode não lembrar do que queria quando era pequeno, não pode não saber se quem te importa está bem, não pode não conhecer o lugar com o qual sempre sonhou, não pode não dar uma chance se há uma pequena possibilidade de funcionar, não pode não saber quais musicas e filmes te fazem chorar e quais te fazem feliz, não pode não descobrir por que está se sentindo mal há tanto tempo, não pode não ter algo só seu, não pode não ter alguém com quem contar e não pode não ter um motivo qualquer para continuar.

 

Você não pode um dia acordar e ver que não se lembra como tudo ficou assim. Pelo menos não deve.



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